O Amor que não precisa mais ferir
- Fernanda Freires

- há 6 dias
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Por muitas gerações, amamos errado. Não por falta de amor, mas por falta de referência. Mulheres da minha linhagem — avós, bisavós, ancestrais — amaram como puderam dentro das dores que carregavam. Aprendemos cedo a confundir amor com permanência, cuidado com sacrifício, vínculo com sobrevivência. Amamos tentando encontrar o pai na pessoa errada, buscando a mãe nas relações erradas, repetindo sem perceber histórias que não começaram em nós.
O amor sempre esteve ali, mas de forma distorcida. Não nos ensinaram a amar a partir do centro, e sim da falta. Por isso, para muitas de nós, amar nunca foi descanso, foi luta. E reconhecer isso dói. Dói olhar para trás e perceber quantas escolhas foram feitas a partir do medo de perder, do medo de ficar só, do medo de não ser suficiente.
O amor, para nós, ainda é algo novo. E talvez seja exatamente por isso que eu tenha decidido fazer diferente. Não por rebeldia, mas por consciência. Sinto, hoje, como se as mãos de todas essas mulheres estivessem apoiadas em meus ombros. Não como peso, mas como força silenciosa. Elas não me pedem repetição. Elas me pedem presença.
Quando olho para meu pai, eu não vejo mais apenas suas ausências. Vejo o seu coração. Vejo suas limitações, suas dores não ditas, suas tentativas possíveis dentro do sistema que o formou. Quando olho para minha mãe, vejo também o seu coração. Vejo a mulher que precisou ser forte antes de poder ser inteira, que amou como sabia, mesmo sem ter sido amada como merecia.
E então eu olho para mim. Vejo meu coração como a união desses dois mundos. Vejo que eles fizeram o que puderam para que eu pudesse ir além. Para que eu atravessasse as sombras da minha própria história, tocasse as dores herdadas e, ainda assim, lembrasse quem eu sou. Não apenas ferida, mas luz também.
Somos luz, mulheres. Mesmo quando esquecemos. Mesmo quando o caminho é escuro. Podemos ser só luz — não a luz que nega a dor, mas a que a ilumina. Porque o amor verdadeiro não apaga o passado, ele o integra.
Por muito tempo, sobreviver foi tudo o que conhecemos. Respirar já era vitória. Amar parecia perigoso demais. Sentir, então, quase impossível. E quando finalmente o amor começa a circular de verdade, é como se o sangue voltasse a correr por um corpo que esteve adormecido por anos. Dói. Arde. Mas devolve vida.
É assim que me sinto quando me permito sentir todas as nossas dores — as minhas e as que vieram antes de mim — sem rejeitá-las, sem fugir. Quando deixo que a luz entre exatamente onde antes havia medo. O amor por nós sempre existiu, mas foi cego por tantas tentativas de pertencimento. Agora, ele encontra a energia da ordem.
Ordem que se traduz em autoestima.
Em magnetismo.
Em amor-próprio.
Em pulsão de vida.
Escrevo como quem toma um café bem cedo, ainda com o dia se abrindo. As palavras vêm sem esforço, fluem como as águas doces de Oxum, mas carregam também a força dos ventos de Iansã. Há suavidade e há movimento. Há acolhimento e coragem.
Estamos indo para a vida. Não para sobreviver a ela, mas para conhecê-la. Para permitir que o universo nos ensine, nos mostre, nos atravesse. Para viver experiências que não cabem mais na dor antiga. Todas nós merecemos isso. E é isso que eu escolho mostrar: que amar pode ser diferente, que viver pode ser inteiro e que honrar quem veio antes não significa repetir seus sofrimentos, mas transformar o que antes foi ferida em caminho.
Fernanda Freires

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